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A História que nunca terminou: O legado da Chapecoense oito anos depois

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Nesta data, o mundo volta os olhos para as vítimas, sobreviventes e para a cidade que transformou luto em resistência

No aniversário da tragédia que abalou o futebol mundial, a Diplomata FM relembra em detalhes a queda do voo LaMia 2933, que levava a delegação da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana de 2016. O acidente, que matou 71 pessoas e deixou apenas seis sobreviventes, marcou profundamente Chapecó, o Brasil e o esporte global. Oito anos depois, as histórias, homenagens e lições deixadas por aquela noite permanecem vivas.

Era a viagem mais importante da história da equipe catarinense: o time disputaria a final da Copa Sul-Americana de 2016, contra o Atlético Nacional, de Medellín — um feito inédito para um clube que, em pouco mais de uma década, havia passado da Série D à elite do futebol brasileiro.

A ascensão da Chapecoense até o sonho continental

Fundada em 1973, a Chapecoense já tinha tradição regional, mas foi a partir dos anos 2000 que o clube viveu sua maior escalada. Em pouco tempo, saiu das divisões inferiores nacionais para se firmar na Série A do Campeonato Brasileiro, tornando a Arena Condá um estádio temido, principalmente pelas grandes equipes.

Em 2016, sob comando do técnico Caio Júnior, a Chape viveu sua temporada mais marcante. Na Copa Sul-Americana, eliminou adversários tradicionais e chegou à final com uma campanha que conquistou simpatia no continente. O primeiro jogo da decisão contra o Atlético Nacional estava marcado para 30 de novembro, em Medellín; a partida de volta seria em 7 de dezembro, no estádio Couto Pereira, em Curitiba, já que a Arena Condá não atendia à exigência mínima de capacidade da Conmebol para uma final.

A pequena Chapecó, no Oeste catarinense, se acostumava com a ideia de ver seu clube disputar um título internacional. A expressão “#ForçaChape”, que depois ganharia outro significado, naquele momento era apenas uma celebração da força de um time-surpresa perante gigantes do futebol sul-americano.

O voo LaMia 2933: rota para Medellín

A delegação embarcou no voo chárter LaMia 2933, operado pela companhia boliviana LaMia. A aeronave era um Avro RJ85, modelo de quatro motores fabricado no Reino Unido, com capacidade para cerca de 95 passageiros.

A rota original previa que a equipe saísse do Brasil e fizesse escala na Bolívia antes de seguir para Medellín. Por questões operacionais e de autorização, o trecho final foi realizado entre Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) e Rionegro, cidade próxima a Medellín, onde fica o Aeroporto Internacional José María Córdova.

A bordo, estavam 77 pessoas:

73 passageiros, entre jogadores, membros da comissão técnica, dirigentes, convidados e jornalistas;

4 tripulantes.

No total, 22 jogadores da Chapecoense, 23 membros da delegação ou diretoria, 21 profissionais de imprensa e dois convidados, além da tripulação.

A madrugada da tragédia

Pouco antes das 22h (horário local) de 28 de novembro de 2016, já em espaço aéreo colombiano, o avião enfrentou uma situação crítica. O piloto reportou ao controle de tráfego aéreo problemas elétricos e falta de combustível, enquanto sobrevoava a região montanhosa entre os municípios de La Ceja e La Unión. Instantes depois, o contato foi perdido e a aeronave desapareceu dos radares.

O avião caiu em uma área de difícil acesso, em Cerro Gordo, zona rural próxima à cidade de La Unión, a cerca de 18 quilômetros do aeroporto de destino. O impacto destruiu a aeronave. Socorristas e equipes de emergência chegaram ao local durante a madrugada e encontraram um cenário de devastação.

O balanço oficial confirmou 71 mortos e 6 sobreviventes. Entre os sobreviventes estavam:

os jogadores Alan Ruschel, Neto e Jakson Follmann, o jornalista Rafael Henzel, e dois membros da tripulação boliviana.

Causas do acidente: a pane seca que jamais deveria ter ocorrido

Logo nos primeiros dias, a principal hipótese apontava para falta de combustível. Em dezembro de 2016, um relatório preliminar da Aeronáutica Civil da Colômbia (Aerocivil) já indicava que não havia sinais de falha técnica grave, sabotagem ou explosão a bordo, reforçando a tese da famosa “pane seca”.

O relatório final, divulgado em abril de 2018, foi categórico.

a aeronave decolou sem a quantidade mínima de combustível exigida pelas normas internacionais para a rota planejada.

O plano de voo não previa combustível de reserva, nem margem para imprevistos ou para alternar o aeroporto em caso de necessidade.

Todos os quatro motores pararam em sequência, justamente por exaustão de combustível;

Houve falhas graves de decisão tanto da empresa quanto da tripulação, que insistiram na rota sem reabastecer, mesmo cientes do nível crítico de combustível.

O comandante demorou a declarar emergência, só o fez quando a situação era irreversível, a poucos quilômetros do aeroporto.

A Aerocivil também apontou problemas de supervisão e fiscalização sobre a LaMia, incluindo deficiências estruturais na gestão de risco e na aprovação de voos não regulares. O acidente foi classificado como totalmente evitável: se os protocolos de segurança tivessem sido seguidos, o voo não teria decolado naquelas condições.

Luto mundial e homenagens históricas

Enquanto as notícias se confirmavam, a comoção se espalhou rapidamente. Estádios pelo mundo acenderam luzes em verde, torcedores de clubes rivais se uniram em vigílias, e mensagens de solidariedade chegaram de todos os continentes.

Imagens das homenagens em Medellín

Em Medellín, o Atlético Nacional mobilizou uma emocionante homenagem coletiva no Estádio Atanasio Girardot, que ficou tomado por torcedores de verde e branco, com cantos, lágrimas e uma atmosfera de respeito raramente vista no futebol. Em Chapecó, a Arena Condá lotou para velório coletivo e cerimônias em memória das vítimas, com a presença de autoridades, jogadores, familiares e milhares de torcedores.

Imagens das homenagens em Medellín

Poucos dias depois, em sinal de grandeza e solidariedade, o Atlético Nacional pediu oficialmente à Conmebol que a Chapecoense fosse declarada campeã da Copa Sul-Americana de 2016. O pedido foi aceito, e a Chape foi reconhecida como campeã, garantindo vaga na Copa Libertadores da América de 2017, na Recopa Sul-Americana e na Copa Suruga Bank. O clube colombiano recebeu o prêmio “Centenário Conmebol ao Fair Play” pelo gesto.

A frase “#ForçaChape” se tornou um símbolo global, estampada em camisas, bandeiras, faixas e campanhas de solidariedade.

As histórias dos sobreviventes

Os seis sobreviventes do voo se tornaram, inevitavelmente, personagens centrais dessa história. Três eram jogadores da Chapecoense:

Alan Ruschel, lateral, passou por cirurgias delicadas na coluna e voltou aos gramados, num retorno emocionante ao futebol profissional.

Neto, zagueiro, sofreu múltiplas lesões e, após longa recuperação, encerrou a carreira e chegou a atuar como dirigente do clube.

Jakson Follmann, goleiro, teve parte da perna direita amputada. Ele encerrou a carreira como jogador, tornou-se comentarista esportivo e palestrante motivacional.

O jornalista Rafael Henzel, que também sobreviveu ao impacto, voltou à narração esportiva e, por algum tempo, tornou-se voz simbólica da resistência e da memória da tragédia. Em março de 2019, porém, Henzel morreu após sofrer um infarto enquanto jogava futebol com amigos, o que reacendeu o luto em Chapecó.

Dois tripulantes bolivianos também sobreviveram, carregando sequelas físicas e emocionais e participando de investigações e depoimentos sobre o acidente.

A cidade em luto e a construção da memória

Chapecó transformou o luto em memória viva. A Arena Condá ganhou um papel ainda mais simbólico, passando a ser também local de homenagens permanentes às vítimas. Cerimônias anuais são realizadas no estádio e em espaços públicos da cidade, como o Átrio Daví Barella Dávi, com flores, cultos ecumênicos, atos religiosos e manifestações de torcedores.

Ao longo dos anos, o clube, familiares e fundações ligadas às vítimas criaram iniciativas para preservar a história daquele elenco e de todos os que estavam a bordo. As camisas, os nomes, as fotos e as histórias individuais seguem presentes em exposições, documentários, reportagens e projetos educativos.

A luta por justiça e as disputas na Justiça

Paralelamente ao luto, famílias de vítimas e sobreviventes iniciaram uma longa batalha por indenizações e responsabilização. As ações envolvem diferentes atores: a empresa LaMia, seguradoras, autoridades aeronáuticas e o próprio clube.

Tribunais trabalhistas e cíveis no Brasil analisam o grau de responsabilidade da Chapecoense em relação ao fretamento do voo e às condições em que ele foi contratado. Em alguns casos, como o do chefe de segurança do clube e do técnico Caio Júnior, decisões recentes determinaram o pagamento de indenizações por danos morais e materiais às famílias, reconhecendo o vínculo com o trabalho e o dever de proteção do empregador durante viagens a serviço.

Mesmo anos depois, muitos processos seguem em andamento, e familiares continuam cobrando respostas, compensações justas e medidas que garantam que erros semelhantes não voltem a se repetir.

A reconstrução da Chapecoense

Poucos meses após a tragédia, em 2017, a Chapecoense conquistou o Campeonato Catarinense, num título simbólico batizado por muitos como “o título da reconstrução”. O troféu estadual foi visto como um primeiro passo esportivo em meio à dor, um sinal de que o clube, apesar das perdas imensuráveis, conseguiria se reerguer gradualmente.

Nos anos seguintes, porém, a caminhada se revelou difícil. O clube enfrentou desafios financeiros, endividamento e oscilações esportivas, incluindo rebaixamentos no cenário nacional. Reportagens apontam que, cinco anos após o acidente, a Chapecoense ainda lidava com dívidas relevantes e tentava se reinventar em um contexto de cobranças por transparência e boa gestão.

Ainda assim, a Chapecoense segue como símbolo de resistência. A camisa verde, as faixas com “Para Sempre Chape” e a lembrança do time que encantou o continente em 2016 continuam mobilizando torcedores e admiradores em todo o país, mesmo nos momentos mais difíceis dentro de campo.

O legado de uma tragédia que o tempo não apaga

O acidente com o voo da Chapecoense vai muito além de um episódio trágico na história do futebol. Ele expôs falhas graves em segurança aérea, planejamento de voos e fiscalização, ao mesmo tempo em que revelou gestos extraordinários de solidariedade, como a atitude do Atlético Nacional e o abraço que Chapecó recebeu do mundo.

Imagem da aeronave e do local do acidente

O legado também está na memória das 71 pessoas que perderam a vida naquela madrugada: jogadores, membros da comissão técnica, profissionais de imprensa, dirigentes, convidados e tripulantes. Cada nome representa uma história interrompida, uma família em luto e um capítulo que segue sendo recontado para que jamais seja esquecido.

Anos depois, a tragédia continua ecoando em Chapecó, na América do Sul e no mundo. Em cada 28 e 29 de novembro, as homenagens se renovam, as arquibancadas voltam a ser tomadas por flores, luzes e lágrimas, e a mensagem permanece a mesma:

“Para sempre Chape.”

Imagem da aeronave e do local do acidente

A seguir imagem dos sobreviventes.

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