Escrito por Celso Deucher, historiador da Casa de Brusque.
Pedro Schmitt: o homem que levou a engenharia catarinense ao mundo Por Celso Deucher – Historiador Na tarde deste 11 de julho de 2026, Santa Catarina despediu-se de um de seus maiores empreendedores.
Pedro David Schmitt partiu, deixando um legado extraordinário de trabalho, inovação, amizade e dedicação ao desenvolvimento industrial, tecnológico e humano de Guabiruba, Brusque, do Vale do Itajaí, de Santa Catarina e do Brasil. Tive o privilégio de receber do próprio Pedro a missão de pesquisar, escrever e organizar sua biografia. Durante quatro anos, percorremos juntos sua história, revivemos memórias, analisamos documentos, fotografias e registros, chegando, inclusive, à revisão completa da obra feita ao seu lado, página por página.
Restavam apenas os últimos ajustes editoriais, a impressão e o lançamento oficial do livro. Infelizmente, o tempo não permitiu que Pedro tivesse em mãos a obra final impressa que eterniza sua extraordinária trajetória. Ele partiu antes da conclusão desse trabalho. Ainda assim, conforta-me a certeza de que sua história foi preservada e permanecerá viva para as futuras gerações, como testemunho de uma vida que fez da competência, da inovação, da amizade e da humildade um verdadeiro legado. Escrever uma biografia significa muito mais do que registrar datas, documentos ou acontecimentos. É procurar compreender a essência de uma pessoa, interpretar seu tempo e preservar para as futuras gerações aquilo que o cotidiano, muitas vezes, não consegue enxergar em sua verdadeira dimensão.
Quando iniciei a pesquisa para escrever a biografia de Pedro David Schmitt, imaginava encontrar a trajetória de um empresário de sucesso. Ao longo de centenas de horas de entrevistas, visitas, consultas documentais e conversas com familiares, amigos, colaboradores e parceiros de negócios, descobri muito mais do que isso. Encontrei um homem cuja vida representa uma das mais extraordinárias histórias do empreendedorismo catarinense. Pedro Schmitt pertence a uma geração de empresários que ajudou a transformar Santa Catarina em uma referência nacional e internacional de desenvolvimento industrial.

Sua história não pode ser analisada apenas pelos números de sua empresa, pelas máquinas produzidas ou pelos mercados conquistados. Ela deve ser compreendida como uma verdadeira construção coletiva, baseada no trabalho, na inovação, na confiança e, sobretudo, nas relações humanas.
Entre os inúmeros capítulos de sua trajetória, três aspectos merecem especial destaque. A fundação da Aço Peças: quando a coragem venceu as dificuldades Todo empreendimento possui um momento decisivo em sua história. No caso de Pedro Schmitt, esse momento foi a criação da Aço Peças. Fundar uma empresa voltada para soluções industriais em uma época em que o Brasil ainda possuía inúmeras limitações tecnológicas exigia coragem, conhecimento técnico e capacidade de assumir riscos que poucos estariam dispostos a enfrentar. Pedro enxergava oportunidades onde muitos viam dificuldades.
A experiência adquirida desde muito jovem na Tecelagem São José, fundada por seu pai, Vadislau Schmitt, somada à sólida formação em Engenharia Mecânica pela UFSC e seu primeiro emprego na área metalúrgica na Irmãos Zen, proporcionou-lhe uma visão diferenciada sobre os processos industriais. A criação da Aço Peças representou muito mais do que o nascimento de uma nova empresa. Fundada inicialmente por Pedro Schmitt, José Orlando Batistotti, Fernando Koehler e Carlos Debatin, a sociedade passou por mudanças ao longo dos anos. Posteriormente, Batistotti, Koehler e Debatin venderam suas participações para Ademar Zucco, que, algum tempo depois, também transferiu sua quota aos sócios Pedro Schmitt e Valdir Riffel, consolidando a estrutura societária que impulsionaria o crescimento da empresa.
Mais do que uma reorganização empresarial, essa trajetória simbolizou a consolidação de uma filosofia de trabalho baseada na inovação permanente, na excelência tecnológica e na busca incessante por soluções capazes de colocar a engenharia catarinense em posição de destaque no cenário nacional e internacional. Isto por que, enquanto inúmeras empresas brasileiras dependiam da importação de equipamentos e tecnologias, Pedro decidiu desenvolver conhecimento próprio.
Sua obsessão nunca foi simplesmente fabricar máquinas. Sua preocupação era resolver problemas industriais. Essa diferença de pensamento fez toda a diferença. Ao longo das décadas seguintes, a Aço Peças tornou-se uma empresa reconhecida pela capacidade de criar soluções sob medida, desenvolver processos inovadores e atender clientes que buscavam muito mais do que fornecedores: buscavam parceiros tecnológicos. Ao escrever esse capítulo da biografia, ficou evidente que o sucesso da empresa jamais foi fruto do acaso. Foi consequência direta da disciplina, do estudo permanente e da disposição de Pedro Schmitt em enfrentar desafios considerados impossíveis. Sua liderança nunca esteve baseada apenas na autoridade do empresário. Era conquistada pelo exemplo diário não apenas dele, mas também de seu sócio e amigo desde a infância, Valdir Riffel. Funcionários, engenheiros, técnicos e parceiros comerciais reconheciam nele alguém que dominava profundamente cada detalhe dos processos industriais.

Era um empresário que conhecia a teoria, mas também compreendia profundamente a prática. Uma referência mundial em extrusão e forjamento a frio Talvez o aspecto mais impressionante da trajetória de Pedro Schmitt tenha sido sua contribuição para o desenvolvimento da tecnologia de extrusão e forjamento a frio. Poucos brasileiros conseguiram alcançar reconhecimento internacional em uma área tão especializada da engenharia mecânica. Pedro tornou-se uma dessas exceções. Sua dedicação ao estudo dos processos de conformação dos metais transformou seu nome em referência entre engenheiros, fabricantes e centros industriais de diversos países. Ao longo de sua carreira, foi palestrante e participou de congressos, visitou indústrias, desenvolveu equipamentos, aperfeiçoou técnicas e contribuiu para elevar significativamente o nível tecnológico da indústria brasileira.
Não demorou para que empresas estrangeiras passassem a reconhecer a competência desenvolvida em Guabiruba. Esse talvez seja um dos maiores orgulhos de sua trajetória. Uma tecnologia construída no interior de Santa Catarina passou a dialogar com alguns dos maiores centros industriais do planeta. Pedro demonstrou que conhecimento não possui fronteiras geográficas. Sua atuação na área de extrusão a frio nunca foi motivada apenas pelo desejo de crescimento empresarial. Havia uma curiosidade científica permanente. Cada novo projeto representava uma oportunidade de aprender. Cada desafio industrial tornava-se um laboratório. Essas características explicam por que sua empresa passou a atender clientes de alta complexidade tecnológica. Ao conversar com profissionais que trabalharam ao seu lado, uma característica aparecia repetidamente.
Pedro nunca acreditava existir um problema sem solução. A solução poderia exigir meses de estudo, cálculos, testes e aperfeiçoamentos. Mas ela existia. Essa forma de pensar transformou a Aço Peças em uma empresa reconhecida internacionalmente. Ao mesmo tempo, colocou Santa Catarina em posição de destaque dentro de um segmento altamente especializado da engenharia mundial. Sua trajetória demonstra que inovação não depende exclusivamente de grandes centros urbanos ou de multinacionais. Ela nasce da capacidade humana de estudar, experimentar e nunca deixar de aprender.
A amizade que aproximou Santa Catarina da Alemanha Existe, porém, uma dimensão da vida de Pedro Schmitt que vai muito além dos negócios. Durante minhas pesquisas, percebi que um dos maiores legados de Pedro talvez não esteja apenas nas máquinas construídas ou nas tecnologias desenvolvidas. Está nas pontes humanas que ajudou a construir. Pedro compreendia profundamente a importância das raízes culturais da imigração alemã em Brusque, Guabiruba e em todo o Vale do Itajaí. Mas nunca enxergou essa herança apenas como memória histórica.
Transformou-a em instrumento de aproximação entre povos. Ao longo de décadas, participou intensamente da construção de relações institucionais, culturais, econômicas e de amizade entre Santa Catarina e diversas regiões da Alemanha. Recebeu empresários, pesquisadores, estudantes, autoridades e representantes de instituições alemãs. Também levou para a Europa a imagem de um Estado moderno, inovador e tecnicamente preparado. Sua atuação fortaleceu intercâmbios empresariais, tecnológicos e culturais que beneficiaram inúmeras empresas catarinenses na atualidade. Muito mais do que estabelecer relações comerciais, Pedro acreditava nas relações de confiança.
Para ele, negócios duradouros nasciam da amizade. Essa talvez tenha sido uma das maiores lições que deixou. Em todas as entrevistas realizadas durante a elaboração da sua biografia, chamou minha atenção a enorme quantidade de pessoas que não se referiam a Pedro apenas como empresário. Falavam dele como amigo. Esse detalhe possui enorme significado histórico. Grandes empresários constroem empresas. Grandes homens constroem pessoas. Pedro pertenceu a essa segunda categoria. Sua simplicidade, sua facilidade de dialogar, seu interesse genuíno pelas pessoas e sua disposição permanente em compartilhar conhecimento fizeram com que amizades atravessassem fronteiras e permanecessem por décadas.
Foi um verdadeiro embaixador da amizade entre o Sul do Brasil e a Alemanha. Disso não tenho a menor dúvida. Nunca teve este título, mas agiu como tal e foi muito competente no que fez. Um legado que permanecerá Poucas vezes, ao concluir uma biografia, tive a sensação tão clara de que estava registrando uma história que ultrapassa os limites da vida de um único homem. Pedro Schmitt representa uma geração inteira de empreendedores que acreditava no trabalho, no conhecimento e na inovação como instrumentos de transformação da sociedade. Sua história inspira empresários. Inspira engenheiros. Inspira estudantes. Inspira pesquisadores. Mas, acima de tudo, inspira pessoas. Seu legado permanece na Aço Peças.
Permanece na tecnologia que ajudou a desenvolver. Permanece nos profissionais que formou. Permanece nas amizades que cultivou em dois continentes. Permanece nas inúmeras iniciativas que aproximaram Santa Catarina da Alemanha. E permanecerá, sobretudo, como parte da memória histórica de Guabiruba, Brusque, do Vale do Itajaí e de Santa Catarina.
Como historiador, sinto-me profundamente honrado por ter recebido a missão de registrar sua trajetória. Como cidadão, considero que Pedro Schmitt pertence ao grupo das personalidades que ajudaram a construir o desenvolvimento econômico, tecnológico e humano do nosso Estado. Sua vida confirma uma verdade simples: máquinas envelhecem, empresas se transformam e gerações passam. Mas os exemplos de caráter, trabalho, amizade e visão de futuro permanecem para sempre.
